Lugar_RSI

AvatarLugar do Real, do Simbólico e do Imaginário
Aqui não se fala dos conceitos de Lacan e a palavra lugar deve ser pensada em sua definição matemática

Você conhece seu anjo da guarda?


Hoje respondi a uma mensagem do Facebook onde se falava de uma criança prestes a nascer e que se sentia pequena e desprotegida. Deus lhe providenciaria um anjo protetor a que ela, dali em diante, chamaria de MÃE.

Tive um anjo assim. Ele me protegeu até que cheguei aos 70 anos de idade. É muita proteção. Às vezes atrapalha.

Em 1958, com 18 anos, fui para Barbacena, para a gloriosa Escola Preparatória de Cadetes do Ar. Quando o trem começou a deixar a gare da Central do Brasil, naquele tempo haviam trens, a mãe chorou. 

Passados 45 dias, tempo de rever a família, peguei o trem de volta. Mas é chegada a hora de regressar. Peguei um trem de subúrbio em direção à Central do Brasil. Quando cheguei, horror, constatei que tinha sido pungueado. Estava sem a carteira e nela estava a passagem do trem para Barbacena. 

Perdi também uma foto inesquecível onde, muita criança, eu ostentava um bonito relógio de pulso. Voltei para casa. Os amigos depois me recriminaram: Por que não nos procurou? Faríamos um cunegundes (acho que foi isso o que eles disseram) e compraríamos a sua passagem. 

Voltei no dia seguinte. O trem era um transporte muito bom mas era muito lento. Quase não chego. Mais um dia, cheguei no capitão Dário para justificar o meu atraso. Contei o sucedido, tudo bem.

Mas então entrou o anjo protetor. Nunca soube se foi iniciativa do pai ou da mãe, mas o caso é que resolveram enviar ao comandante Dário um telegrama contando uma história completamente diferente da minha. 

Chamado à sala do comando dos alunos foi-me entregue o telegrama. Fiquei branco, amarelo, azul, mas sustentei o real motivo do meu atraso. Eu já era muito homem, o resto era mamãezada e papaizada...

Quando passei no concurso da Aeronáutica, eu mesmo vi. Os resultados saiam no Diário de Notícias. Os quadradinhos com os sobreviventes vinham cada vez menores. No último deles meu número persistia.

Na Engenharia também foi comigo. Vi lá no painel o meu nome, mas fiz cara de triste para me livrar do trote. Já quando fui para a Petrobrás a mãe me levou a notícia lá na barbearia do Alberto. Achei que ela é quem tinha entrado para a Petrobrás. Estava muito feliz.

Já passei muito sufoco, que nem vale a pena recordar. Minha mãe sempre me segurou. Quando eu a levava para consultas médicas a danada me surpreendia, tinha marcado consulta para mim também. 

Há dois anos meu anjo se foi. Há dois anos não compareço a uma consulta médica. Cuide-se, seu Lalo, seu antivirus da vida está vencido...

Armadilhas de fogo

O novo deputado federal Neca, eleito pelo PR-RJ e residente em Nilópolis, me pediu, num encontro casual que tivemos na rua, idéias que pudessem ser base para projetos que marcassem sua passagem pela Câmara Federal. E infelizmente aconteceu essa tragédia em Santa Maria, RS, um incêndio numa boate que vitimou, fatalmente, em torno de 250 pessoas.

Eu acho que um projeto, em âmbito nacional, que visasse à rigorosa fiscalização dessas verdadeiras churrasqueiras humanas já seria digno de atenção por parte de todos os políticos.


A seguir, escreve Haroldo Barboza:

 Com o incêndio da boate Kiss em Santa Maria (RS) no início de 2013, voltou à tona o velho problema que aflige o aglomerado de construções edificadas sem planejamento de segurança nas grandes cidades. A preocupação dos construtores é aproveitar cada metro quadrado para mais um cômodo do condomínio ou mais espaço para clientes aglomerados em teatros, boates e shoppings, em detrimento de uma área de escape em caso de acidentes perigosos. Pouco se importam com a vida dos que frequentarão o futuro prédio. O desleixo da administração pública que concede "habite-se" sem maiores exigências (rotas de fuga apropriadas e desimpedidas) e altera gabaritos de alturas irresponsavelmente fica evidente a cada dia.

   E o perigo potencial aumenta pela ganância dos proprietários que permitem que o local seja ocupado acima da capacidade prevista. Além de “depósitos” de material que obstruem as fugas e chegada aos equipamentos de segurança. Não há fiscalização e quando acontece, qualquer “galo” é suficiente para o “zeloso” fiscal abandonar o local.

   A tragédia torna-se normal por nossa acomodação (não boicotamos tal prática) ao longo do tempo e num belo dia somos filmados e exibidos ao mundo, com nossos corajosos bombeiros numa luta desigual contra o fogo, sem equipamentos modernos, com mangueiras furadas, hidrantes entupidos e obstruídos por carros e outros obstáculos que triplicam o tempo de atuação dos valorosos soldados.

   Ainda temos lembrança dos grandes incêndios no prédio da Eletrobras, Serrador e Andorinha no Rio e do Joelma em São Paulo. Na semana seguinte as “ortoridades” afirmam que rígidas normas serão adotadas e a fiscalização será aprimorada. Dois meses depois, com o Big Besta Brasil chegando ao final de sua edição, a população perde o interesse pela segurança (sua e de seus entes familiares) e o cenário para novas tragédias permanece intocável.

   No final de 2001, acidentalmente participei de uma simulação de incêndio num dos prédios da empresa onde trabalhei por 31 anos. Apesar da estrutura de atuação anunciada e da dedicação dos monitores, percebemos algumas falhas que comprometem o processo. Falhas estas provavelmente decorrentes de um treinamento que não é o desejado, fruto de uma contenção de despesas inaceitável quando se trata de vidas humanas. Como a política atual é de reduzir custos nas empresas, a segurança é um dos itens iniciais a serem menosprezados, seguidos da limpeza e ambiente dos escritórios. Os intervalos de treinamentos aumentam, o número de participantes é reduzido a cada ano (com a saída de alguns funcionários, os que sobram precisam acumular mais atividades) e a manutenção dos equipamentos é feita sem muita exigência por firmas terceirizadas e em épocas bem distantes. Os instrutores passam a ser elementos também terceirizados que não sabem nem onde fica a válvula de descarga dos banheiros do prédio. Quanto mais a caixa das mangueiras do seu andar e as rotas de fuga.

   Na verdade, a salvação de cada pessoa, vai depender em grande escala de seu próprio raciocínio (que na hora do pânico fica comprometido) e de sua calma no instante do sinistro. Sabemos que no momento de um incêndio em locais fechados, uma grande parcela de pessoas morre ou se machuca gravemente se atropelando pela ânsia de salvar a própria pele. E o atropelo aumenta por um erro grave de projeto nas construções dos altos prédios nas cidades. As escadas (o primeiro pensamento de fuga das vítimas) possuem a MESMA largura desde o primeiro até o último andar. Na verdade, elas deveriam vir se alargando do último andar para o térreo, de acordo com a capacidade projetada de pessoas que devem ocupar o prédio. Claro que com isto, os andares inferiores teriam menos salas ou lojas. Mas seria melhor esta perda de espaço do que se tornar candidato à manchete como os prédios Joelma, Serrador e Andorinha em passado recente. Paliativos como passarelas entre prédios vizinhos e escadas externas também poderiam minimizar algumas tragédias. Mas não investem nesta parceria nem fazem manutenção preventiva. Na hora do sinistro é que descobrem que uma porta está emperrada por falta de óleo na freqüência adequada ou que a placa indicando a saída correta foi coberta quando da pintura do corredor. Mais fácil culpar o inocente destino que não tem advogado para defendê-lo quando ocorre uma catástrofe com vítimas fatais.

   Aliás, que providências visando a segurança foram adotadas pelas autoridades depois daqueles sinistros que chocaram a opinião pública? Basta que os jornalistas encontrem novos destaques (a violência humana está em alta no momento) para suas manchetes dinâmicas e as autoridades fingem esquecer os problemas potenciais. Certamente, as poucas medidas que foram implantadas já não são seguidas com muita rigidez no momento de se conceder o "habite-se" de prédios que não priorizam segurança máxima para a população dos mesmos. Ao circular por grandes prédios, confira se os extintores estão em dia, se a caixa de energia não está repleta de fios desencapados prontos para um curto, se as caixas de interruptores não estão acomodando fios mal enrolados, se a capacidade da mesma (com mais de 50 anos) é inadequada para os equipamentos modernos, se não há produtos inflamáveisarmazenados dentro dos compartimentos de gás e energia, se as placas apontando escadas estão visíveis, se existem móveis obstruindo a rota de fuga, se as lâmpadas de emergência estão prontas para funcionar, se as indicações sobre orientação de monitores estão sobre o botão do elevador e se materiais inflamáveis estão prontos para servir de combustível para o churrasco do seu corpo.

Você não vai perder mais de 5 minutos nesta prática semanal em prédios diferentes em qualquer região do país. Circule principalmente onde você mora e trabalha. A maioria das pessoas prefere ignorar estes riscos e penetram nestas armadilhas sem exigir que suas vidas sejam preservadas.

   Quem vai impedir que um Sérgio Naia coloque em atividade seus prédios de baixa qualidade tão logo os elevadores estejam funcionando? O incêndio que destruiu 4 ou 6 apartamentos no luxuoso condomínio Novo Leblon na Barra em 2004, expõe uma realidade contundente não observada no momento em que se adquire o caro imóvel: não existe sistema de tratamento de esgoto. Os dejetos são lançados “in natura” na lagoa mais perto. O caro sistema de segurança não atinge a 70% de eficácia. Regularmente ocorrem assaltos nestes conglomerados de luxo. O sistema de combate ao fogo é tão frágil quanto os de prédio menos dotados. As bombas de pressurização não são testadas regularmente, mangueiras passam anos enroladas apodrecendo dentro de seus compartimentos nos belos corredores e as válvulas de comando do fluxo de água normalmente estão emperradas pela ferrugem acumulada pelos vários anos sem uso. E cada morador não tem “seu plano” de emergência para estas situações.

   Passamos a vida imaginando que nas cidades podemos nos defender contra os perigos(?) que a Natureza nos reserva. Ledo engano. Nós criamos as maiores situações de risco por desconhecimento e desatenção. Nossas cidades estão repletas de monumentais churrasqueiras de concreto e vidro para fritar suculenta carne ... humana.

O pega-ladrão do Haddad

- Enteindem?

Ali pelos meus 10 anos de idade a rua Olinda, em seus 200 metros de extensão, poderia ter no máximo umas 10 a 15 casas. Atualmente tem mais de 50, uma grande cabeça de porco, sem nenhum controle por parte da municipalidade. E aquelas casas não possuiam marcador individual de luz. O relógio "comunitário" ficava em uma cabine na parte alta da rua, fazendo esquina com a rua João Pessoa.

Quando a gurizada descobriu, virou festa. Íamos lá, à noite, para fazer "sabotagem", desligar o relógio e deixar tudo às escuras. O chefe da quadrilha, que não precisa temer o Lewandowski, era o Gilson, o mais velho, que poderia ter 13 ou 14 anos.

Mas certa noite deu problema. Um morador teve a paciência de ficar pelos arredores à espera dos infantis sabotadores. Quando a malta chegou perto do relógio ele gritou:
- Então são vocês...

E foi criança correndo para tudo que era lado, menos o Gilson, o cabeça do bando, que com ar de deboche gritava para os amiguinhos:
- Corram, "pulhecos"! Vieram aqui desligar o relógio, agora corram, seus safados!

Mas que cara-de-pau! Me lembra de um certo ex-presidente que dizia que o mensalão nunca existiu, muito embora muitos digam que ele seria o chefe.

Resumindo, essa é a técnica pega-ladrão. O criminoso tenta ludibriar seus perseguidores fazendo-se passar por um deles. Foi por isso que José Serra disse que Fernando Haddad faz o jogo do pega-ladrão.

Para encerrar, imaginem o Pelé repetindo seu bordão mais popular: - "Entendem"?

Você tem sede de quê?

Admirável Mundo Novo - Aldous Huxley

Dois assuntos ontem me deixaram "pelas tampas", como diria o comentarista esportivo Washington Rodrigues. Eu acrescentaria mais: que me deixaram em órbita.

A primeira traulitada: "Foi sancionada, ontem, pela presidente Dilma Rousseff, lei que destina metade das vagas em universidades federais para estudantes que cursaram o Ensino Médio em escolas públicas".

O governo do PT investe na ignorância. O ex-presidente Lula sempre fez a apologia da ignorância. Arrogante, jactava-se de que seus assessores, doutores formados em diversas universidades, carregavam pastas com seus documentos.

Nada contra a escola pública. Foi onde sempre estudei e que me deu embasamento para ingressar na Escola de Aeronáutica, Escola Nacional de Engenharia e Petrobrás. Porém existe ainda o componente racial - candidatos afrodescendentes e indígenas. A meritocracia foi pro vinagre.

Quem entra na internet, nas redes, nos sites onde os leitores comentam, se depara com barbaridades, desde os enganos mais "complicados" como a confusão entre "a" e "há" e "mais" e "mas" até coisas corriqueiras, como usar cedilha antes de "e" e de "i". Abriu-se um grande fosso no ensino da língua portuguesa no Brasil, para não falar da matemática e outras disciplinas.

O outro assunto. Vocês conhecem o site de pegadinhas G17... Pensei que se tratasse de coisa do tipo. Infelizmente não era. "Senadora Marta Suplicy propõe acabar com a Família Tradicional. É mole ou quer mais"?

Alguns pontos:
- Acabar com a família tradicional;
- Retirar os termos “pai” e “mãe” dos documentos;
- Acabar com as festas tradicionais das escolas (dia dos pais, das mães) para “não constranger” os que não fazem parte da família tradicional;
- A partir de 14 anos, os adolescentes disporão de cirurgia de mudança de sexo custeada pelo SUS;
- Cotas nos concursos públicos para homossexuais etc...

Dona Marta provavelmente leu Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, onde todo bebê era de proveta. A sociedade dela seria mais sofisticada. Não existiria papai e mamãe, mas sim papai e papai ou mamãe e mamãe. A tradicional posição papai e mamãe está abolida.

Seguem tópicos desse esdrúxulo Estatuto da Diversidade Sexual:

Uso de banheiros e vestiários de acordo com a sua opção sexual do dia. Não se aborreça com aquela esquisita te olhando, o caso dela é outro...

Não é permitido deixar de ser homossexual com ajuda de profissionais nem por vontade própria. Palavra de rei não volta atrás...

As escolas não podem incentivar a comemoração do Dia dos Pais e das Mães. Que pena...

Cotas nos concursos públicos para homossexuais assim como já existem para negros no RJ, MS e PR e cotas em empresas privadas como já existe para deficientes físicos. Basta levar uma fungada no cangote para ter o futuro profissional assegurado...

Censura a piadas sobre gays. Contar piada de português... pode?

O Estatuto defende que o Estado é obrigado a investir dinheiro público para homossexuais que querem caros procedimentos de reprodução assistida por meio do Sistema Único de Saúde (SUS) e também o Estado é obrigado a criar delegacias especializadas para o atendimento de denúncias por preconceito sexual contra homossexuais, atendimento privado para exames durante o alistamento militar e assegura a visita íntima em presídios para homossexuais e lésbicas.

Como falei lá em cima, estou em órbita. Se isso tudo entrar em vigor nem aterriso mais. Procurarei abrigo em Marte; saio à procura daquele jipão, o Curiosity...

O sono da preguiça


"Essa ladeira, que ladeira é essa? Essa é a ladeira da preguiça" ... Gilberto Gil

Esticar o sono na hora da preguiça não é recomendável. Frequentemente é quando acontecem os mais desagradáveis pesadelos e você acorda sob pressão, perseguido por algum monstro inconfessável. 

Já perdi a conta dos carros que já me foram roubados por acordar depois da hora. Quando volto de algum compromisso não encontro o carro no estacionamento. Aliás, nem encontro o lugar onde estacionei. 

Imaginem vocês, por teimar em permanecer na cama e acabar dormindo de novo, até já sonhei que estava casando de novo... com a minha mulher! Não é justo. 

Sonhar é uma coisa estranha, os cenários se modificam bem como os personagens, só você atravessa incólume os limites do tempo e da distância. Vai-se a Paris num piscar de olhos. 

Então, depois de muitas peripécias, cheguei à casa dela e fiquei conversando banalidades com sua mãe. Não demorou, ela chegou com um rapaz que eu sabia ser o namorado. Era uma preta linda como eu jamais tinha visto. Nada falei. Fitei-a fixamente durante um longo tempo esperando por uma demonstração de alegria por eu ter ido visitá-la. Nada. Como na canção Killing Me Softly, "ela olhou através de mim, como se eu não estivesse lá". 

Demorou mas ela esboçou um sorriso. Disse-me que achou que eu ia bloqueá-la no Twitter. Falei bem próximo do seu rosto, da sua boca. Ela se afastou agastada, dizendo da sua contrariedade com tamanha proximidade.

Ah, sim, era o seu aniversário. Perguntei-lhe quantos anos fazia. Ela respondeu: Três! Pedi pra mostrar nos dedinhos. Ela mostrou-me os três e para mim esse foi o sinal para acordar.

Por que sonhei com uma negra se a pessoa em questão tem a pela clara? Por um momento supus, agora acordado, que poderia estar sonhando com outra garota. Mas não, no sonho você é onipresente e onisciente. O que importa é que acordei descansado e pensativo, com a cabeça lá no coração da pátria.

A vingança, a bela e a fera ou, eu quero gozar a vida com você


Eu já tinha reparado nisso, uma fera sempre dá um jeito de colar numa bela. Quem sabe o repasto recusado pela bela não sobra para a fera?

Essa é uma história da vida real, então estou preocupado agora, antes de colocar aquela legenda que aparece em filmes: "qualquer semelhança com personagens da vida real é mera coincidência", em conseguir um nome que não cause suscetibilidades na fera. Fica sendo Hermengarda.

Aconteceu comigo. Uma das piadas da época era dizer para alguém: - Existe no clube uma garota que é apaixonada por você... É a Hermengarda.
Quem a conhecesse entendia logo que era gozação, caso contrário, ficava curioso.

O truque de andar com belas moças com a finalidade de arranjar um namorado não funcionou para a Hermengarda. A última vez que soube dela foi quando a vi num programa chamado Casamento na TV, apresentado por Raul Longras.

Toda gente sabe, um bêbado percorre três fases em sua carraspana. Começa como um macaco, alegre, rindo muito, contando piadas, fazendo gozações; prossegue como um leão, raivoso, valente e, do nada, pega uma briga com outro bêbado ou mesmo com pessoas sóbrias. A comédia termina na fase do porco quando, se houver tempo, a criatura corre ao banheiro para eliminar via oral o que seu pobre fígado não pôde resolver.

Naquela noite, no baile realizado na quadra do clube, eu já tinha visto a Hermengarda com uma cigana muito bonita. De repente começou a briga. Acho que oitenta por cento dos homens estavam alcoolizados, inclusive eu. Mas não bebi o juízo. Os leões estavam soltos e um dos seus alvos era, imaginem, o pai da cigana, que estava apavorada e pedia que alguém o acudisse. Entrei naquela confusão, onde todo mundo se empurrava e ninguém entendia direito o que estava acontecendo. Briga de bêbado é uma merda. Mas aos poucos os ânimos foram serenando; talvez para alguns se avizinhasse já a fase do porco.

A cigana estava praticamente aos prantos mas eu a acalmei dizendo que tudo estava solucionado. E ficamos por ali conversando amenidades. Quando notei que a situação estava tranquila comecei a dizer que a achava muito atraente e que queria ter um tempo para conversar melhor, enfim, levei aquele (*)leriado que todo conquistador usa e toda musa já teve que aturar. Mas ela me cortou rápido. Disse que vinha de um relacionamento conturbado, onde tinha sido desprezada e humilhada, e estava querendo se vingar, fazer sofrer o próximo pretendente. Era amiga de uma das minhas irmãs, por isso ia livrar minha cara.

Jamais pensei se realmente ela estava sendo generosa com o irmão de uma de suas amigas ou se era um atalho rápido para detonar pessoas desinteressantes. O certo é que a vi afastar-se conversando animadamente com a Hermengarda.

Pode alguém perguntar: que tem a ver com a história a parte do título que diz "eu quero gozar a vida com você"? Bem, é uma música de duplo sentido que tem uma letra muito pobre, mas poderia ter sido um hit de sucesso se a cigana tivesse acedido aos meus preitos...

(*)leriado - esse é um termo usado no nordeste, sem dúvida nenhuma relativo à palavra "léria".

As ilusões perdidas, os enganos renovados


Naquela manhã de Natal acordei contrariado. No lado direito da cama, sobre o travesseiro, havia um embrulho no formato de um livro, e eu queria ganhar um revólver. Fazer o quê? Comecei a abrir o pacote para ver o que "o bom velhinho" me reservara. Era um revólver. Parecia de verdade. Vinha com uma serpentina de espoletas, munição que quase esgotei no primeiro dia. A criançada começava a correr apavorada quando eu acionava o gatilho.

Veio o carnaval e a mãe, saudosa mãe, completou minha alegria. Como excelente costureira que era, fez uma calça cáqui, uma camisa xadrez e comprou um chapéu a caráter. Estava pronta minha fantasia de cowboy.

Honoré de Balzac escreveu As Ilusões Perdidas. A ilusão do Papai Noel toda criança sempre perde. Quando ganhei o revólver eu sabia que já não era com o barbudo. Antes de prosseguir é preciso colocar um foco nesse meu desejo de ter um revólver. Eu já ia ao cinema, os filmes americanos predominavam. John Wayne, Roy Rogers, o Zorro, etc, filmes de inegável violência. Mas eu sabia discernir o que era filme, o que era vida real e, principalmente, o que era certo, o que era errado. Um revólver, para mim, era apenas um brinquedo. Se não me engano corre por aí a opinião de que devem ser abolidos os brinquedos que suscitem violência, como os revólveres de brinquedo.

E se Balzac escrevesse Os Enganos Renovados? Na minha caixa de correio um amigo fala sobre o PCB. Ele gosta também de Cuba. Fala sobre os militares torturadores na ditadura. Sobre Fidel Castro, que matou milhares no paredão, silencia. Para ele o comunismo é a redenção da humanidade mas não enxerga, a rigor, que isso não existe em lugar nenhum do planeta. A China é o que é porque é comunista apenas administrativamente. Economicamente é um país capitalista.

Há uma questão que põe muitas dúvidas na cabeça das pessoas. Se o comunismo fosse implantado no Brasil, como estabelecer quem moraria em Copacabana, quem moraria em Nilópolis? Essa lebre foi levantada em 1959 por um professor na Escola de Aeronáutica. A turma respondeu quase em uníssono: em Nilópolis moraria o Lailo. É muita sacanagem...

Tamo si perdido


Sempre que vinha da Barra da Tijuca, principalmente à noite, perdia a entrada à esquerda para a Cidade de Deus e ia parar em Cascadura. Depois do quarto ou quinto erro acertei o caminho. Outro grande problema no trânsito era achar o caminho de Magno, ao lado de Madureira, para Rocha Miranda. Só encontrava ruas que eram contra-mão e ficava dando voltas e mais voltas. Numa dessas a filha mais nova (cinco anos) mandou: Tamo si perdido!

Ontem, durante o café, eu via na TV o missionário R.R. Baba-de-quiabo Soares. Ele explicava que os dedos indicadores na verdade se chamam desentope-ouvido, recomendando aos fiéis (são mesmo muito fiéis) que, conforme o ouvido com problema, colocassem em cima o dedo da mão esquerda, o da mão direita ou ambos os dedos, que ele faria uma oração, a ser repetida pelo gado.

Os ortorrinolaringologistas ficarão sem emprego. Todos os clientes dessa especialidade são dizimistas do R.R. Soares. Toda a igreja estava com os dedos nos ouvidos. Tenho a impressão de que esse curandeiro é na verdade um hipnotizador. Ele planta na platéia as doenças - dores de cabeça, caroços, dores nos rins, na bexiga, espinhela caída, etc - depois os cura. Cansei...

No próximo canal dei de cara com o apóstolo Valdemiro Santiago, que está em uma guerra santa com o bispo Macedo para se saber qual dos dois é o mais safado. Ele adota o estilo paizão. Abraça as senhoras chorosas, testemunhas de recente milagre, levando a baba de quiabo de sempre. Dizem que está podre de rico, dono de algumas fazendas onde o sol não se põe, tal o tamanho das mesmas, e tudo às custas do dinheirinho das ovelhinhas inocentes.

O que me preocupa em tudo isso, o resumo da ópera, é que toda essa gente que dá suporte a esses servos de Deus (ou do diabo?), não tem um mínimo grau de discernimento, de busca da verdade, de nada. Com a mesma facilidade com que dá crédito a um milagreiro da igreja, essa gente vai às urnas votar em políticos mais sujos que pau de galinheiro. São muitos os problemas da democracia, um deles é dizer que o voto de um cidadão que faz parte do gado tem o mesmo valor que o de um eleitor alfabetizado e não alienado. Tanto não tem o mesmo valor que os ladrões de sempre estão sendo eleitos ano após ano. E tem parlamentar que se jacta de estar no "trigésimo" mandato... 

É realmente preocupante. Será que realmente "tamo si perdido"? É o que parece.

Você confia na urna-E?



Publico mais uma vez um artigo de Haroldo Barboza, amigo de longa data. Ele tem uma urna eletrônica atravessada na garganta...

No decorrer de março de 2012, o prezado amigo Ricardo Boechat (Band FM) declarou (de boa fé) que acreditava que o sistema de apuração de votos no Brasil é um dos “mais seguros” do mundo.

Tal declaração partindo de um conceituado comunicador de alto gabarito como este, deixa grande parte da população tranquila quanto a este processo, acreditando que alguma coisa boa nossos governantes produzem a ponto de nos deixar orgulhosos dos dirigentes que “escolhemos” para dirigir nosso país! O povo certamente transformará a declaração “mais seguros” em algo perto de 99%.

Claro que é um índice excelente para qualquer linha produtiva. Para qualquer área de prestação de serviços.
Até mesmo na área de saúde! Sabemos que o imponderável entra em todas estas áreas com seu 1% para nos impedir de chegarmos à perfeição. De certa forma isto é bom porque nos mantém evoluindo em busca da melhoria.

Mas não é um índice aceitável num processo de escolha de pessoas que vão definir Leis que manipulam os impostos extorsivos que pagamos. Imagine uma indústria produzindo latas 99% vedadas. Pelo 1% não garantido, entrarão milhares de micróbios nocivos. Tal processo eleitoral, que tem grandes cabeças para elaborá-lo, máquinas poderosas para ajudar estas mentes e tempo bastante para testar as situações PREVISÍVEIS, tem de ser 100% eficaz. E o custo da DEMOCRACIA não tem preço!

Eu trabalhei por 32 anos na área de Informática e garanto que existem diversas possibilidades de fraudar o processo e por isto o mesmo não é 100% seguro. Existem dezenas de chances de manipulação do processo em vários pontos do circuito.

A desconfiança aumenta pelas atitudes que o envolvem. Vejamos algumas.

- O TSE elabora as normas, executa o processo, efetua a contagem, recebe as denúncias, efetua as “auditagens”, “julga” seus erros e define as “penalidades”. Nenhuma entidade externa confere nenhuma destas etapas. Até hoje o caso das “urnas de Alagoas” (2006) não teve esclarecimento público convincente. Fora outras suspeitas em localidades menos votadas.

- O voto não se materializa. Não existe forma de se conferir se o total apresentado por cada urna é igual ao conteúdo “registrado” num histórico. Algo barato de se implantar. Ele se volatiliza. Imagine se o governo aceitaria que as empresas informassem seus ganhos anuais na declaração do IR e não tivessem as notas fiscais, recibos e faturas para comprovar esta contabilidade. O fato de a contagem terminar no mesmo dia apenas deixa a população “encantada” com o processo por não ver a sujeira de cédulas espalhadas no local da apuração. Pergunte à LIESA se ela confia e aceita este processo virtual para definir os vencedores do Carnaval!

- Países de alto grau de politização do povo não utilizam o formato aqui imposto.

- Países tidos como menos gabaritados e conhecidos com atravessadores de produtos “piratas” também não aceitam este processo.

- O TSE não permite que testes de violação das urnas sejam efetuados conforme proposta do Engenheiro Amilcar Brunazo Filho (www.votoseguro.org) que deseja conferir a confiabilidade do processo. Inclusive ele editou um livro explicando as possibilidades e formas de prática de fraudes.

- O TSE não esclarece ao eleitor a possibilidade dele votar NULO, que é um direito do eleitor não satisfeito com o “menu” de aproveitadores que participam do “circo”.

- Os partidos não habilitam seus fiscais na área de Informática para efetuarem as vistorias adequadas. Tendo ar refrigerado, lanche e transporte, eles dão OK ao andamento do processo e validam os resultados. Depois não reclamam do resultado pois se aproveitarão do mesmo sistema “seguro” quando estiverem no poder, dentro do rodízio que definem nos porões da podridão.

Em função do resumo acima exposto, sugeri que o grupo BAND efetue um contato com o Dr. Amilcar e lhe ofereça espaço (20 minutos por semana durante os próximos dois meses + uma reportagem de uma semana na TV BAND) para que este processo seja mais bem compreendido pelos que atualmente apenas participam para validar algumas “farsas” que não espelham a vontade correta de quem votou.

Não confundir processo seguro com má escolha do eleitor. Isto nenhum processo pode impedir. Isto requer um projeto que deve começar nas escolas básicas (e seguir nas demais) que atualmente não possuem estrutura para tal por falta de pressão popular.

A vergonha da mulher

Lembro de todas as minhas professoras. A primeira, das primeiras letras e números, foi a D. Ernésia, a segunda, D. Rodi. Depois D. Celi, D. Clara e D. Maria Luísa. A D. Clara, na quarta série, fez quase toda a turma repetir. Estranhamente não me lembro do nome da professora da quinta série. Naquela época os alunos que concluiam a quarta série já procuravam os cursos de férias dos ginásios. Era a admissão garantida para o primeiro ano ginasial. Pagou, passou. Até uma garota que foi reprovada comigo na quarta série, não quis nem saber, apresentou-se, pagou e passou. Deve ter sido uma péssima aluna. 

E eu fiz a quinta série. Entrei no curso ginasial arrebentando. Era um dos primeiros alunos da classe. Mas a professora da quinta série, não lembro dela. Essa época era, mal comparando, como a face oculta da Lua. Dizem que lá habitam estranhos seres. Daqui não dá pra ver. Mas existem teorias...

Não obstante, a memória seletiva filtrou algumas passagens. Eu sentava na primeira fila com o Edson. Atrás sentavam a Dalila e a Nadir. Os quatro conversavam quase o tempo todo. Eu ficava surpreso porque a professora não dava esporro na gente. No início as conversas eram inocentes. As moças tinham uma linguagem, não sei se era a do "Pê" ou do "R". Eu e o Edson falávamos de trás pra frente: "Iav ramot on uc". Era uma festa. 

A coisa extrapolou. Certo dia a Nadir me chamou para ir no banheiro. Não sei se fiquei com medo de ser flagrado ou se fiquei com medo de encarar a garotinha (tradução: babaca). Acho que foi a segunda hipótese. Ela deveria ter 11 ou 12 anos. Certo dia me perguntou: Qual a vergonha da mulher? Sei lá, respondi... Qual é? Ela respondeu candidamente: são os peitos...
Mandei de pronto: então você não tem vergonha nenhuma.
Ela subiu o agasalho e espremeu a blusa contra o corpo, dizendo: ah, é?, olha aqui!
E sobressaiu um promontório, um peitinho virginal, menor que um pirulito. Não me pareceu que ela tivesse vergonha alguma, peito até podia ter.

Passaram-se sessenta anos. As mulheres perderam a vergonha, ostentam peitos turbinados. Algumas, antes despeitadas, alegam a busca da auto estima. Outras querem mais é verem os homens babarem.

Qual é mesmo a vergonha da mulher? Sabe que você tem a bunda muita feia?

É bacalhau, ou As vacas estão magras

Não, não é um artigo sobre o Vasco da Gama...
Vocês sabem, bacalhau não é um prato que se decida na hora. É preciso deixar de molho na véspera, escaldar no dia seguinte, etc... Hoje estou comendo a maravilha e consumi toda uma garrafa do impecável chardonnay Casa Perini.

Mas já houve uma época em que detestei bacalhau.
Março de 1959. Atrasei-me para a apresentação no Campo dos Afonsos, praticamente todos já haviam tomado o café. Lá em casa era café preto, pão e manteiga. Então o suco de laranja, os ovos estrelados e o café com leite me davam a sensação de estar subindo vários degraus, pelo menos na escala gastronômica.

Os dias se sucediam. Café, almoço e jantar. Detestei o dia em que, após o almoço, me deram um trote que consistia em comer todo o doce de figo em calda que sobrara na mesa. Até hoje detesto figo. Mais prazeroso foi, num outro dia, ser obrigado a comer mil-folhas e rebater com suco de laranja. Tinham pouca imaginação aqueles veteranos.

Eu não falei, mas eu era um calouro na gloriosa Escola de Aeronáutica, buscando um brevê de aviador na Força Aérea Brasileira. Infelizmente consegui apenas um meio brevê. Mas isso é outra história.

Chegamos ao ponto, o ponto central da narrativa, o jantar dos cadetes e alunos da Escola. Não sei que deu naquela gente mas em determinada ocasião deram para repetir o menu que era, nada mais nada menos que... bacalhau. Bacalhau com agrião? Sei lá! Sei que estava me embrulhando o estômago. Quando cheguei a casa no fim de semana mamãe me esperava com um, argh!, bacalhau. Reclamei.

Epílogo. Atualmente muitas unidades das Forças Armadas trabalham em meio expediente. A turma almoça em casa, não há verba para o rango. Não direi que estão armados de estilingue porque aí já seria demais.

Quando fui um soldado da pátria era um rei e não sabia. Os convocados para o serviço militar de hoje em dia, dizer que são apenas mendigos privilegiados é muito forte, não?

Um professor de Português politicamente incorreto


Tive bons professores no curso ginasial. No ano da graça de 1953 era essa a nomenclatura. Eu era bom aluno e, no fim do ano, era dispensado, por alguns professores, de fazer a prova oral.

Else - esse era o nome da professora de Francês - perguntava meu nome e dizia: "Vai com Deus, meu filho". Também era assim com os professores de Português, Inglês, Latim e Desenho.

Eu era um dos três melhores alunos da turma mas o Arísio, professor de Matemática, não gostava nada de mim. No mês em que tive o primeiro lugar ele, na cara dura, deixou escapar entre dentes: "Não mereceu"! Dane-se! Tirei DEZ nas outras matérias...

"Seu" Paulo, o professor de Português, era uma figura. Aliás, ele ficava bravo quando o chamavam de "seu" Paulo. "Seu" Paulo é o quitandeiro, dizia. Eu sou o professor Paulo... Com ele aprendi a desenvolver o estilo de escrever que conservo até hoje. Nessa época, com 14 anos, lia muito, José de Alencar, Machado de Assis, Humberto de Campos e Eça de Queiroz.

O professor Paulo lia na classe principalmente trechos de José de Alencar. "Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna e mais longos que seu talhe de palmeira". Eu prestava atenção ao modo como ele fazia a leitura, as pausas nos pontos e nas vírgulas. E quando ele pedia alguma redação à turma eu procurava fazer colocando os pontos e as vírgulas à moda de José de Alencar, imaginando que ele fosse ler meu trabalho, o que, efetivamente, acontecia.

Paulo era um professor irreverente. Nos textos exemplos de suas aulas uma vítima era o aluno Benjamim. Ele dizia: "Eu, como o Benjamim, não faria isso". E perguntava à turma: "O que é esse "como"? E concluía: "Neste caso é verbo mesmo"...

Minha avó veio de Pernambuco para morar no Rio de Janeiro. Num 7 de Setembro ela manifestou seu desejo de assistir ao desfile militar, principalmente para ver o Getúlio. Ela queria ver o presidente Getúlio Vargas. Meu tio a levou, eu fui junto. Ao final do desfile passou o velho, acenando para a multidão, e minha avó não cabia em si de contente. Talvez pela minha avó eu, que tinha 13 anos e nenhum entendimento de política, passei a gostar de Vargas.

Entendi que o professor de Português era um admirador do jornalista Carlos Lacerda quando ele propôs à turma um dos seus exemplos politicamente incorretos: "Quando o presidente Getúlio Vargas se suicidou, dei uma cagada. O que é esse quando"?

Passados 57 anos da morte de Getúlio Vargas eu me lembro dessa pequena falha de caráter do professor de Português e já me decidi. Se o câncer que atormenta a laringe de um conhecido político lograr êxito prometo ser mais respeitoso.

Uma festa real num lugar virtual


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O Paulo me apresentou as pessoas mas esqueci os nomes, lá se vão 23 anos. Fomos a um magnífico sítio e ele me contou maravilhosas histórias, de uma encarniçada luta entre uma cobra e um lagarto na piscina vazia do lugar, do velho proprietário com um canivete chupando laranjas ao lado das laranjeiras, do desgosto que ele teve ao dar parte do sítio ao filho e vê-lo vender essas terras, da beleza de sua filha, o que ainda pude testemunhar. Mas eram outros tempos. Ela ponderou que ele estava sumido, mas eram compromissos do trabalho, ele respondeu. Agora que estávamos em campanha política dispúnhamos de tempo para visitar os amigos.

O Paulo era meio galinha, logo veio com uma conversa enviesada pra cima da "jovem", que lhe respondeu: "seu Paulo, meu tempo já passou".

Numa outra vez em que lá estive ela me convidou para uma festa no sítio. Cheguei na minha Brasília e estacionei ao longo de inúmeros carros que estavam no caminho de acesso ladeado por bouganvílias de variados matizes. Muita gente compareceu. 

Eu me lembro, quando mais novo, de ter passado por esse sítio, cujas terras iam até o final da rua numa extensão de quase duzentos metros por cem, contra os quarenta metros que tem agora. 

Nunca mais passei por lá e tenho visto no Google Street View apenas ruínas. Quando estiver com mais tempo perguntarei aos vizinhos o que aconteceu aos moradores. Pude ver também uma faixa reclamando do lixo deitado em frente ao desmoronado muro por vizinhos desclassificados. 

As bouganvílias e os jardins foram destruídos, a casa principal foi demolida. Não consigo enxergar muito mais coisas até o final dos 100 metros de terreno, mas fotografei (comprovei) a faixa. Ela diz: "Se você tem vergonha na cara, não jogue lixo ou entulho neste local pois será processado judicialmente. Estamos de olho em você".

Como falei, há um muro em ruínas e um portão fechado a cadeado. O que desapareceu do muro foi completado com madeiras velhas e arame farpado, afora galhos de árvores abatidas. Completo descaso. O atual dono não tem muita moral para reclamar dos porconildos.


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Giacomo Girolamo Casanova

A menos de uma centena de metros do colégio ele colocava sua banca de revistas usadas - gibis e livros. Após as aulas a molecada, dos 13 aos 17 anos, passava por ali e comprava uma literatura... juvenil. Lembro que, para aprimorar meu inglês, comprei um livro com o título Doomed Demons. Eram narrativas de aviadores durante a guerra. Tradução: Demônios Condenados. Esse livro eu o emprestei ao professor de inglês mas quando fui pedir de volta ele perguntou: Você quer o livro de volta? Fiquei sem graça de dizer que só tinha emprestado.
Para os fregueses mais chegados o "livreiro" oferecia as revistinhas do Carlos Zéfiro. Eu comprei um livreto do Casanova. Falava sobre a juventude do galanteador e os ensinamentos libidinosos dados pelo seu preceptor. Narrava sua primeira decepção amorosa, com Bettina, uma menina de 13 ou 14 anos, com quem marcou um encontro mas, chegando lá, já tinha outro consumando o "ato". 

O Gilton me pediu esse livro emprestado. Não fiz caso de que ele era evangélico. O problema não era meu. Emprestei. Não demorou batem no meu portão. Era sua mãe. Muito educada, me perguntou se eu tinha emprestado o livro ao seu filho. Diante da afirmativa (ela tinha lido todo o livro, eu suponho) passou a dissertar sobre as (más) qualidades morais da Bettina, uma garota tão nova e já tão pervertida. Não lembro se tentou me dar alguma lição de moral, sei que me devolveu o livro.

Dizem que Casanova era feio, tinha olhos de touro. Seu preceptor, Malipiero, o iniciou em uma seita secreta, onde aprendeu conhecimentos cabalísticos, de numerologia, de feitiçaria e magia negra. Após entrar nesta seita, Casanova usou os conhecimentos da numerologia para ganhar nos jogos e para conquistar mulheres.

Quem souber que seita era esta, por favor, cartas à redação. Pode ser que ainda dê para mim...

O último feijão de coco - tempo de rir, tempo de chorar

Era Natal ou Ano Novo, não lembro bem, mas a menina, minha namoradinha, chorava. Indignação da minha parte, "eu estou aqui, meu bem"... Seu pensamento estava longe. A mãe dizia que eram recordações. Não seriam por certo do pai que ela não conhecia. Talvez fosse pela desagregação da família, achei o mais provável.

Numa hora de desabafo, muito antes desse dia, ela tinha me dito que não conhecia o pai, nem fazia questão de conhecer. De repente poderia até ser um cara que na rua estivesse lhe dando uma cantada. Que estranho... Ainda bem que não entrei para essa família, muita complicação.

Quantas vezes você chorou no carnaval? É provável que, vestido de Pierrot, tivesse lamentado a perda de uma Colombina. Felizmente quando isso acontece a perda é tão efêmera quanto os poucos dias de folia.

São João, Santo Antonio, São Pedro. Sua batata já assou enquanto o cumpadre Fulgêncio contava uma historinha para a Ritinha, aquela caipira por quem você nutria enorme simpatia? Tudo não passa no entanto de fatos corriqueiros, com ferimentos leves.

Eu queria falar da data atual, Sexta-feira Santa, Sábado de Aleluia, Páscoa. Não são datas alegres, nem mesmo o dia de malhar o Judas. O costume, nas grandes cidades, está completamente abandonado. Antigamente era uma tristeza aparecer no longo testamento do Judas. Ou você era corno, suas filhas, piranhas, seu filho, gay ou você era um amigo do alheio. O período que antecedia a malhação do traidor de Cristo muitas das vezes dava polícia, era só aborrecimento.

A Sexta-feira da Paixão sempre foi um dia em que apenas se comia peixe; carne era uma enorme heresia. O padre também contava suas historinhas. Aquela família tinha feito bife no dia santificado. Quando o homem cortou a carne esta começou a sangrar que não parava mais. Peraí, seu padre, o senhor quer que um menino de 10 anos, um menino com padrões morais já em desenvolvimento acredite nessa léria?

Minha família foi educada na crença católica. Nunca fui de quebrar paradigmas então, mesmo não acreditando muito, sempre segui os dogmas cristãos. Sexta-feira Santa era peixe e acabou-se.

Não lembro das comidas que a mãe fazia, mas o feijão com coco na Semana Santa era inesquecível, de se comer ajoelhado. Acompanhava um bacalhau no coco de primeiríssima. Muito me espanta que tanta gente não conheça esse maravilhoso prato do nordeste.

Neste ano não comi o feijão com coco. Não tinha quem fizesse. Procurei por restaurantes que servissem a iguaria mas só encontrei as receitas. Vou negociar com a mulher para que quebre a rotina. Providenciarei um bom vinho para a ocasião. E algumas lágrimas...

Cotas, cotas e... mais cotas


Liberté, égalité, fraternité foi o lema da Revolução Francesa, mas há certos detalhes que escaparam ao consenso. A norma antiga, fruto dos iluministas da Revolução Francesa, dizia que os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos. São iguais também em relação aos deveres.

Andou por aí uma propaganda enganosa feita pelo governo, na esteira da eleição de uma presidente, dizendo que agora elas podem tudo, ser engenheiras, aviadoras, médicas, tudo que quisessem. Ada Rogato, Anésia Pinheiro Machado, Thereza di Marzo e outras mulheres brevetadas nos anos 20 sempre souberam disso, mas não basta querer, é preciso poder, ter competência.

Pais orgulhosos diziam que, graças ao presidente analfabeto, seus filhos seriam doutores, arquitetos, advogados... Abriram as portas das faculdades aos burros do Brasil - só dizendo assim. Daqui a pouco qualquer um vai dizer que tem direito a uma vaga no corpo da Orquestra Sinfônica Brasileira. E olha que lá já está havendo confusão até demais. O maestro Roberto Minczuk quer modernizar a orquestra, fazer provas de avaliação em músicos que estão há anos em atividade.

As pessoas não são iguais. Fui colega de turma de um gênio que chegou a ser Reitor do Instituto Tecnológico da Aeronáutica. Nunca me passou pela cabeça competir com ele. Faltavam-me meia dúzia de neurônios, percebem? Como é, então, que qualquer boquirroto pode pensar em chegar a qualquer faculdade, arrebentar as portas e entrar como num estouro da boiada? Não é assim.

O governo encontrou um modo de facilitar a vida de quem não possui uma estrutura intelectual adequada: inventou as cotas. Onde estão as pessoas com pouca oportunidade para pagar um ensino de qualidade? Entre os negros e os indígenas. Não importa quão pouco aquinhoados eles sejam de inteligência, eles têm direito a uma cota.

As mulheres estão chegando, cada vez com mais força. Há uma reclamação de que recebem menor salário que um homem na mesma função. Talvez numa pequena empresa isso aconteça, numa grande, jamais. Estão aí as grandes capitãs da indústria, do agronegócio, as musas da política. No entanto, são poucas, coitadas, vamos protegê-las. Há uma cota de mulheres na política e ai do partido que não respeitar. Falta combinar com o eleitor. Será que elas serão votadas?

Chegamos finalmente ao esporte, a um esporte específico, o jogo de damas, o esporte intelectual. Nunca aceite o desafio de uma menina de São Paulo para disputar uma partida; elas são abusadas e competentes. Você vai perder e vai demorar pra cair sua ficha. 

Também no que se refere ao jogo de damas, São Paulo é um país dentro do Brasil. Lá a prática do esporte está a anos-luz em relação a outros Estados  e a tendência é melhorar. O jogo de damas é praticado em diversas escolas. 

Agora vem o desfecho.

Apesar de competentes, as mulheres são discriminadas no jogo de damas. Então o dirigente da Federação, não vou dizer seu nome, exigiu que toda equipe que disputasse campeonatos regionais tivesse uma mulher atuando nas partidas. Deu confusão. Vocês sabem, garotas novas, tendo que viajar para outras cidades na companhia de marmanjos, não é todo pai ou mãe que vai deixar. Mas o dirigente se manteve irredutível.

Um indignado damista sugeriu uma solução inusitada e debochada: ia alugar prostitutas para compor sua equipe. Houve uma grita geral entre as meninas, e mais de uma sugeriu que o cidadão levasse a mãe dele para jogar. Não sei como terminou a comédia. Se e quando souber, volto aqui para contar.

Trens, trens e trens


A antiga e bela Estação Ferroviária de Vassouras

Nunca tive a curiosidade mórbida de conferir tragédias, de olhar os mortos. Por isso mesmo me arrependi naquele dia, após a aula, com dez anos de idade, de ter acompanhado a malta que foi olhar o menino atropelado pelo trem. Estava lá o buraco na testa, seu corpo estendido ao final da plataforma, no caminho aberto à travessia das pessoas. 

Há muito tempo, neste local, foi construída uma passagem subterrânea ligando as ruas que margeiam a ferrovia, que está agora toda protegida por altos muros. Não há mais passagens de nível para automóveis. Construíram um viaduto e para os pedestres há uma nova passarela mais as duas antigas, que servem de acesso às estações do trem.

Soube do atropelamento de uma senhora, que eu conhecia, antes da construção do muro. Era um trecho em curva e a pessoa, um tanto surda, não ouviu o barulho do trem. Além das duas passagens de nível para veículos haviam pelo menos mais cinco passagens por onde circulavam pedestres. Quantas vítimas fatais não teriam aí sucumbido?

As populações se desenvolvem ao longo dos rios, das rodovias e das ferrovias. O que era uma pacata fazenda transformou-se num centro habitacional de crescimento vertiginoso dividido pelos trilhos da ferrovia. Com o tempo as coisas se organizam. Constrói-se um viaduto sobre os trilhos ou um pequeno túnel sob os mesmos. Mas nem tudo é tão fácil. Quem já não viu o vídeo do trem que passa dentro de uma feira livre em Bangcok? O mesmo ocorre em Maceió na famosa feira do Rato ou do Passarinho. Lá os vendedores já estão sendo retirados apesar da resistência de alguns. O viaduto e o muro são a solução.

O Brasil não tem vocação para o trem. Já se foi o tempo em que se podia ir a Minas ou a São Paulo pelos trilhos. Mesmo no Rio de Janeiro eram incontáveis as localidades servidas por esse meio de transporte. Mas é como diz meu amigo de Miguel Pereira, acabou o ciclo do café, acabou o ciclo da laranja, acabou o milho, acabou a pipoca; quem irá subsidiar o trem? O governo é que não é. Aliás, quase toda a malha ferroviária do país está destruída.

Há informações que o último trem de passageiros deixou a estação de Vassouras em 30/11/1970. Atualmente ela abriga departamentos administrativos da Fundação Educacional Severino Sombra. Abaixo vai a foto. Uma época romântica. Parece coisa fora do contexto mas eu não podia deixar de incluir essa informação. Vassouras é um lugar por onde passo semanalmente.


O Brasil não gosta de trens. Vamos deixar esse "trem", como dizem os mineiros, para civilizações mais adiantadas, a França, por exemplo, a maior malha ferroviária do mundo. Confiram aqui.

É bem verdade que agora nos acenam com o trem bala. Mas querem saber? Acho que vislumbraram apenas mais uma oportunidade de "negócio", se é que me entendem...

Novas Cantoras do Brasil (3) - Manu Santos


Nascida no Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Fez seu primeiro show aos 16 anos, e a partir daí, efetivamente, dedicou-se à arte de cantar. Possui uma voz exuberante, um carisma único, uma gentileza infinita, e domina seu palco como pouquíssimos artistas!

Ouvir a voz de Manu é uma experiência maravilhosa. Assisti-la no palco é um evento incomparável.

Copiei as linhas acima do blog Multiply da Manu. 
Outros sites da Manu Santos:


Manu Santos é nossa amiga no Twitter. Você pode seguí-la em @manusantosmpb ou em @manusantos
Ela vai seguí-lo de volta.

Além dos vídeos encontrados nos blogs e sites acima, gostei particularmente deste, Acontece, do Cartola.

No Muro Das Lamentações

Que estaria pedindo D. Marisa Letícia? 

Que o manguaceiro desse um tempo na marvada?

Piadas não têm prazo de validade, então não hesite (os assassinos da língua escrevem "exite") em tirar do fundo do baú aquela velha anedota. Confie na falta de memória de seus amigos. Se alguém rir amarelo é porque, já quase no finzinho, se lembrou da trama.

"No muro das lamentações" me chegou por e-mail. O remetente foi enfático, é repeteco. Eu, de fato, já conhecia a história, mas enquanto lia, imaginava como seria se houvesse um muro igual a esse no Brasil, onde as pessoas fossem fazer as suas queixas e desejar que nossos deputados, senadores, governantes em geral e até a raia miúda, apaniguada nos escalões inferiores, parasse de roubar. Bem, assistam ao final do filme...

Sub-título: O velho judeu

Uma jornalista da CNN ouviu falar de um judeu muito velhinho que ia todo dia ao Muro das Lamentações para rezar, duas vezes por dia, e lá ficava por muito tempo. Decidiu verificar. Foi para o Muro e lá estava ele, andando trôpego, em direção ao local sagrado. Observou-o rezando por uns 45 minutos, quando ele resolveu sair, vagarosamente, apoiado em sua bengala.

Aproximou-se para a entrevista.
- Desculpe-me, senhor, sou Rebecca Smith, da CNN. Qual o seu nome?
- Morris Feldman - respondeu ele.
- Senhor, há quanto tempo o senhor vem ao Muro orar?
- Bem, há uns 60 anos.
- 60 anos! Isso é incrível! O que o senhor pede?
- Peço que os cristãos, os judeus e os mulçumanos vivam em paz. Peço que todas as guerras e todo o ódio terminem. Peço que as crianças cresçam em segurança e se tornem adultos responsáveis. Peço por amor entre os homens.
- E como o senhor se sente, pedindo isso por 60 anos?
- Me sinto como se estivesse falando com uma parede...

Novas Cantoras do Brasil (2) - Belô Velloso


Conheci a sobrinha da Bethânia em 28/08/09, no Twitter (@belovelloso). Foi amor à primeira tuitada. Depois é que eu soube que ela era de uma família de artistas famosos. Como fã e seguidor no Twitter, sempre que a vejo compartilho seus posts, dou RT em suas mensagens.

Quem é Belô Velloso? Mais do que eu poderia dizer está aqui a biografia que consta de seu site oficial. 

Vamos aos vídeos. Gostei deste duo com Sandrá de Sá, O Que Vai Ser De Mim.



Gostei também deste outro, Por Te Querer.



Próximo post: Manu Santos, @manusantos