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Aqui não se fala dos conceitos de Lacan e a palavra lugar deve ser pensada em sua definição matemática

De como o Brasil perdeu um admirável cantor lírico

Aos dois anos de idade eu já cantava uma canção com os versos: Seu Lalo, Seu Lalo, Seu Lalo, Lalo; Seu Lalo, Seu Lalo... Só isso. Nessa idade não se tem mesmo muita inspiração. Essa passagem me foi contada pelo meu tio mais novo, já falecido. Daí surgiu o blog Seu Lalo.

Aos 13-14 anos comecei a ouvir música americana, a velha influência da cultura americana. Eu tinha um colega que gostava do Mário Lanza e ele me indicou um programa na Rádio Eldorado que era bem na hora do almoço. Era chegar do colégio, trocar de roupa e pegar o rango ouvindo a Rádio Eldorado - Mário Lanza, Manolo Álvarez Mera, Gino Bechi, Tito Schipa, Doris Day, Rosemary Clooney e até o Frankie Laine. Tinha também o Perry “Temptation” Como. Sua interpretação de Temptation era inigualável.

Aos 18 anos fui servir como soldado na Aeronáutica, ali na Companhia de Polícia, ao lado do Aeroporto Santos Dumont, Rio de Janeiro. O tio de que falei acima morava na Glória, ali pertinho. Eu ficava lá durante toda a semana e ia a pé para o quartel, admirando os jardins da Glória. O dial do rádio do meu tio ficava congelado na Rádio Ministério da Educação. Era música clássica o dia todo. Conheci o tenor Beniamino Gigli e o grande Caruso.
Após dois meses larguei o quartel e fui para a gloriosa Barbacena, estudar na Escola Preparatória de Cadetes do Ar, Minas Gerais. Musicalmente, pouco tenho a contar de lá, além do fato de ter cantado no coral da Capela.

No ano seguinte estava na Escola de Aeronautica, em Marechal Hermes, Rio de Janeiro. Numa sessão de Educação Física, onde todos os alunos (cadetes) se misturavam, novos e antigos, perfilados, entoou-se o Hino Nacional. Um oficial passou do meu lado e, ao ouvir minha voz, sem maldade me entregou: temos aqui um tenor. Um grupo de cinco ou seis amigos, dos quais só lembro o nome de um, que me disse ter um parente na TV e que iria me apresentar ao pessoal da televisão, essa turma se reunia após o jantar e eu era o encarregado de apresentar alguns hits americanos. O Migueis nunca mais falou da televisão, eu, muito menos.

A Aeronáutica passou na minha vida, profissionalmente, porque no sentimento meus amigos continuam a me relembrar aquele tempo e eu estou até emocionado por falar nisso agora; mas como dizem os comentaristas de futebol, vida que segue, e eu fui tratar da minha sem esquecer da música.

Cantei no coral da igreja próximo a minha casa e uma das cantoras me indicou um excelente professor, que mantinha uma coluna de música no jornal O Globo e era maestro do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Fui procurá-lo no Largo do Machado. Não tenho como me lembrar mas pelo que pude pesquisar acho que seu nome era Salvatore Ruberti. Ele sentou-se ao piano e falou: vamos ver se temos aí um Titta Ruffo (barítono) ou um Caruso (tenor). Mandou-me vocalisar em O, U e I. Foi quando chegou uma graciosa aluna. O velho ficou bobo. Beijos, abraços e atenções totais. Perguntou-me: - O que faz? Disse-lhe: - Estudo. Respondeu-me seco: - Sua voz tem qualidades. Mas vá estudar.
E voltou a babar para o lado da menina. Ele era um profeta. Quem diria que um presidente da ditadura falaria alguns anos depois – Estudante é para estudar! Não sei se foi o Médici ou o Figueiredo; ou nenhum dos dois? Quem se lembrar me ajude.

A verdade é que a mulher é um dos encantos da vida, dos homens, é claro, e até também de algumas sapatonas. Mas disse o Clodovil que elas estão muito ordinárias. Ele tem razão até certo ponto. E cada saci que ponha sua carapuça. Em outro artigo voltarei a este assunto.

Vinte anos depois estava educando minha voz na Escola Villa-Lobos, no Rio de Janeiro. Mas já não era a mesma coisa. Lembro-me agora de uma bela senhora que estava sendo descaradamente cortejada por um amigo meu. Ela, educadamente, lhe respondeu: - Senhor Paulo, meu tempo já passou!

E foi assim que o Brasil perdeu um grande barítono lírico. Mas terá ganhado um grande contador de lorotas!

1 comments:

14 de maio de 2007 16:13 Anônimo disse...

Do que nós escapamos então, meu caro Lailo.
Petroleiro Aposentado.

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