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Aqui não se fala dos conceitos de Lacan e a palavra lugar deve ser pensada em sua definição matemática

O amigo paizão

O Sérgio Babão já estava na Faculdade de Direito. Numa noite de domingo foi ao clube do bairro, mas naquela época não existia o refrão do Ministério da Saúde - beba com moderação. Daí que a pessoa extrapolou. Vocês sabem, há três fases no comportamento do bêbado: o macaco, o leão e o porco, rigorosamente nesta ordem. O macaco apresenta um comportamento inquieto, falante, goza da cara dos outros, fala palavrões em excesso não respeitando as famílias presentes. Quando admoestado inicia rapidamente a fase leão. Seu nível de voz se altera, fica voluntarioso e age violentamente.
Para seu azar estava presente ao baile, com a família, o Delegado de Polícia, que foi ver se dava um jeito na fera. Mas foi desacatado e segurou fortemente o braço do Babão começando a dar-lhe umas sacudidelas. O Babão não se fez de rogado. Apontando para o braço segurado, de dedo em riste, vociferou para o Delegado:
- Olha o corpo de delito! Eu sou facultativo de Direito!
Muito justo, estava na Faculdade de Direito, então era "facultativo".
O Delegado de imediato lhe desferiu uma forte bofetada e encerrou a comédia. O Babão se calou e o leão deu lugar a um frágil cordeirinho. O ciclo se completou sem a presença do porco.

Vamos a uma cena que deveria iniciar a narrativa. Mas é que eu queria lhes apresentar o Sérgio Babão já que ele voltará mais à frente e vocês já estarão sabendo do que ele é capaz. E, por favor, não digam que foi por culpa da bebida.
Eu estava na casa de um amigo e seu filho, que estava começando a andar, fraquejou e bateu com a cabeça na mesinha de centro. Como desandasse a chorar procurei ajudá-lo, mas o pai, impassível, me recomendou que fingisse não ter visto nada; o garoto, sem platéia, logo se calaria. E foi o que aconteceu.
Hoje eu estava pensando como o meu amigo, iniciando uma família, já tinha um certo traquejo com a psicologia infantil. Mas cheguei à conclusão que ele apenas seguia o modo de educar os filhos passado pelos seus pais.
Fiquei algum tempo sem ver esse amigo e quando tive notícias soube que ele já estava com uma segunda esposa, para tristeza de sua mãe e de suas irmãs. E eu não pude entender como uma família, aparentemente tão bem constituída, se desfez da noite pro dia. Passado mais um tempo me disseram que ele se "casara" pela terceira vez. Depois me falaram de uma quarta esposa. Finalmente, quando o encontrei, ele mesmo me disse que estava com a quinta mulher. Nada de barba azul, de homem galinha, ele estava apenas procurando seu ponto de equilíbrio. Todos os relacionamentos tinham acabado por sua culpa exclusiva. O errado era ele. Infelizmente quando achou seu equilíbrio e sua paz, recebeu também a visita da inevitável, aquela que a todos leva, cedo ou tarde.
Conheci esse amigo aos treze anos, no curso ginasial. Quando o curso acabou passei a frequentar sua casa e lá conheci outras pessoas. Nessa longa convivência conhece-se até os pensamentos do outro. Certa vez fomos, quatro camaradas, passar o carnaval na praia de Sepetiba, no Rio de Janeiro. Levei papel, lápis, prancheta e fiz alguns desenhos lá. Se quiserem ver um desses desenhos, com data de 29/02/1960, está publicado no blog Borrocando. Clique no desenho para ampliar.
Estávamos todos solteiros. À noite um desses amigos iria encontrar-se com a namorada, cujos pais tinham casa na praia. O outro estava querendo se arrumar com a irmã dela. O personagem desta narrativa não sei se tinha algum programa; eu certamente não tinha. Então, quem encontro? Quem encontro? Quem encontro? O Sérgio Babão. Estava em Sepetiba e iria dar uma festinha para os amigos e me convidou para passar a noite em sua casa. Meu amigo não gostou e me aconselhou a não ir.
- É melhor você não ir. Aquele cara é muito depravado. Você não vai gostar das festas que ele promove.
Fiquei imaginando o Sodoma e Gomorra que não terá rolado na casa do Babão naquela noite. O meu amigo não agiu propriamente como um paizão mas sim como um irmão mais velho que zela pelo caçula, embora tivéssemos a mesma idade.
Sempre tive amigos do bem. Nenhum nunca me chamou para dar porrada em mendigo, para fumar cigarros não convencionais ou qualquer outra coisa errada, muito menos surubas. O Babão certamente não era meu amigo.

1 comments:

27 de dezembro de 2007 10:09 Lerdo em Surtar disse...

O texto do amigo tem um conteúdo psicológico muito preciso.
Traz uma análise muito apurada e um realismo aguçado como o fio de uma navalha.
Como "amigo paizão", traz a figura de um homem cujo filho biológico havia dado literalmente uma... cabeçada. Esse mesmo pai mais adiante foi indulgente consigo mesmo nas suas próprias discrepâncias vivenciais ao longo dos relacionamentos afetivos. E o texto ainda nos remete ao amigo que também nos livra do Sérgio Babão.
Sérgio Babão!
Os ingredientes são conhecidos: álcool, uma fraqueza exposta ao ingeri-lo... e uma suposta realização pessoal simbolizada pelo curso de direito.
E essa descrição impagável das há três fases no comportamento do bêbado: o macaco, o leão e o porco!
Se eu fosse apresentado ao autor do texto, Seu Lalo, certamente eu não gostaria de ser o Sérgio Babão - ou seria Sérgio Fanfarrão?
Se passei longe do sentido do post, posso assegurar que ao menos a narrativa prende a atenção do leitor.
Um abraço do Lerdo Lerdão em Surtar.

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