Lugar_RSI

AvatarLugar do Real, do Simbólico e do Imaginário
Aqui não se fala dos conceitos de Lacan e a palavra lugar deve ser pensada em sua definição matemática

Uma vez, uma loira

"Nunca houve mulher como Gilda"
Naturalmente, dito por Glenn Ford a respeito de Rita Hayworth

Um náufrago, certo dia, viu com imensa alegria que não estava mais só naquela ilha e, suprema felicidade, emergia do mar uma mulher. E como alegria de náufrago dura pouco, logo, brandindo o punho cerrado, ele vociferava:
- Que azar, uma loira. Detesto loiras!

Uma blonde a quem tive a insensatez de contar essa piada quis logo pegar uma briga comigo. Francamente, é só uma piada, e nem de loira é; o alvo era um "cabra" desmantelado e sem futuro, como diria o nordestino Mução.
E quem sou eu para dispensar uma loira? Só que tenho a pele morena e conheço meu lugar. E até para demonstrar que não tenho nenhum preconceito contra elas (fico até aborrecido com essas piadas idiotas que lhes são atribuídas) vou narrar o que aconteceu comigo quando tinha 22 anos.

Quando fui desligado da Aeronáutica procurei uma instituição que fazia testes de seleção para empresas para que atestasse que minha personalidade não era imatura como alegaram os milicos. Não deu em nada, uma junta médica manteve o laudo. Melhor teria sido dizerem que eu não me adaptava à vida militar. Dali a poucos meses a mesma instituição de seleção me avisou que havia um emprego à minha disposição. Fui parar como auxiliar no Departamento de Pessoal da Helena Rubinstein Produtos de Beleza. Era um grande departamento, só eu e o chefe. Ganhávamos o mesmo salário e fazíamos praticamente as mesmas tarefas por um motivo que não cabe explicar agora.

Após o carnaval de 1963 houve uma anunciada admissão de operárias na fábrica, que ficava na rua Bela, em São Cristóvão, Rio de Janeiro. Quando cheguei naquele dia à fábrica levei o maior susto quando vi aquela multidão de mulheres em frente ao prédio. Por um momento pensei que eu me havia enganado de endereço. Subi. Já havia começado o expediente e nada da chefe das operárias. O sub-gerente me pediu que tirasse aquelas moças do sol e as conduzisse ao refeitório. Eram umas duzentas "ratinhas" atrás do flautista de Hamelin. Sabem o que é ratinha em Portugal? Nem queiram saber. Pois bem, sofri chacotas de toda espécie. Tenho certeza de que se se tratasse de duzentos homens e uma mulher eles seriam bem mais respeitosos.
A chefe da fábrica tinha grande experiência. Quando chegou, em breve espaço de tempo reduziu aquelas duzentas candidatas a menos de trinta e me pediu que retornasse ao refeitório com formulários de cadastro para serem preenchidos.

Foi quando a vi. Seus cabelos não eram mais negros que a asa da graúna, nem mais longos que seu talhe de palmeira como os de Iracema, a virgem dos lábios de mel, de José de Alencar. Eram sim cabelos de linho e o azul de seus olhos não lembrava nenhuma porção de céu sem nuvens porque aqueles olhos eram bem mais azuis, indescritíveis.
Quando recolhi as fichas separei a dela e me senti como o náufrago lá de cima. Uma bela navegante dera à minha praia, morava no meu bairro e eu teria companhia no meu barco, digo, no meu ônibus.
No dia seguinte a encarregada me entregou algumas fichas para que eu enviasse telegramas convocando as escolhidas para se apresentarem no emprego. Minha "bela moleira" estava de fora sob a alegação de que suas referências eram insuficientes. Eu prontamente me ofereci para telefonar para seus ex-patrões e complementar as informações.
Disseram-me de lá que não era praxe dar referências por telefone, mas como se tratava dela, excelente funcionária, abririam uma exceção. E se eu não achasse suficiente me dariam tudo por escrito. Agradeci.
Por que certas mulheres possuem o dom mágico de obterem a boa vontade dos homens? Paz na Terra aos homens de boa vontade. Ela nunca soube dessa minha ação em seu favor.
Eu sempre joguei limpo tanto com os homens quanto com as mulheres. Certos concorrentes meus se surpreendem quando, ao me pedir a fonte dos produtos da minha firma , eu forneço endereços e telefones sem temor algum. Que cada um seja feliz e faça por onde.
Então eu não inventei nada, a moça tinha méritos e precisava muito do emprego. Ela era o homem da casa, como me contou depois.

Quando ela se apresentou para trabalhar eu não quis preencher seu contrato, deixei isso a cargo do outro funcionário. Comecei a fazer outras tarefas, escastelado em minha Torre de Marfim. Eu já estava fazendo meus lances, movendo meus bispos, meus cavalos, minhas torres. A rainha teria que capitular. Um novo rei iria prevalecer naquele reino.
No primeiro dia de trabalho, encerrado o expediente, não a vi no ponto do ônibus. No dia seguinte um colega do escritório, que namorava uma operária que já fizera amizade com a menina, me contou que ela pegava o bonde até a Central, partida dos trens para o subúrbio. Mas logo houve uma greve de trens ou de bondes, não me lembro, e ela apareceu no ônibus... com o namorado. Com o noivo, me disse depois; ela tinha mania de casar.
Eu sempre lia algum livro no ônibus e lendo o meu livro fiquei e sequer olhei para eles.
Mais um dia e, no õnibus, ela veio sem o namorado e me disse:
- Você ontem estava todo orgulhoso. Nem olhou para mim.
- ??????????

Ela também estava fazendo seus lances. Senti que meu peão-quatro-do-rei estava em perigo. Ela me enredava em sua teia, mas tinha namorado.
Tudo acontecia muito rápido. O namorado de sua amiga (que na verdade era o estafeta do amor) me disse que ela tinha terminado o compromisso, recado esse adredemente combinado. Então marcamos um cinema para o fim de semana. Uma irmã foi conosco, segurando a vela, como se diz. Tudo muito bem comportado. Não fui até sua casa. Nos despedimos ainda próximo ao cinema.
Naquela época houve um blackout prolongado na região. Na segunda-feira levei-a próximo à sua casa e pudemos desfrutar daquela absoluta falta de luz. Não vou descrever aqui qual o entendimento que tivemos naquela noite, mesmo porque não me lembro, juro.

Esta narrativa está com jeito de diário, os fatos se sucedem dia a dia. Na terça-feira a moça tinha algo a me confessar. Não tinha terminado o namoro. E disse mais: no dia do cinema, logo após nos despedirmos, na outra esquina encontrou o namorado. Já imaginaram a cena? Eu desafiado para um duelo tipo capa e espada... ou tendo que escolher padrinhos para resolver a disputa, na madrugada envolta em nevoeiro, num duelo a pistola. Bastaria que uma gota do meu sangue fosse derramada para que a honra daquele mancebo fosse lavada. Mas eu tenho horror a derramamento de sangue, principalmente quando é o meu B positivo. E assim terminou o que mal havia começado, no tempo e na forma.

- Mas eu não gosto dele, ela ponderou.

Não entendi até hoje o que ela pretendia. Colocar-me no lugar do noivo, transferindo para mim a responsabilidade de realizar seus sonhos? Ela tinha mania de casamento, já disse.

Mais pra frente, e não por causa dela, me afastei da firma. Retornei um dia para tentar vender uns papéis ao gerente da fábrica e encontrei aquele meu colega, o estafeta. Ele ainda me falou dela, que também havia saído da firma. Contou que em um de seus últimos dias ela chegara à fábrica num vestido branco deslumbrante, mais linda que nunca, parecia uma rainha. Não aparentava de modo algum ser uma simples operária. Alguém diria que se tratava de uma nova demonstradora, aquelas moças lindíssimas, enormemente maquiadas, que divulgavam os produtos da firma nas grandes lojas de cosméticos. Ou seria uma estrela de Hollywood? Não sei o que o gerente da fábrica pensou, mas perdeu a linha quando a viu. Não tentou disfarçar sua admiração, arregalou os olhos e, arriscando-se a ter um torcicolo, volteou a cabeça como quem acompanha o incandescente asteróide invadindo a atmosfera terrestre.

5 comments:

21 de maio de 2008 14:55 Lerdo em Surtar disse...

Eu também tive uma paixão infrutífera por uma loira. Mas, não tem muita emoção como essa sua história.
Eu era louco pela loira da lâmina Platinum-Plus dos comerciais da TV. Por mais que eu comprasse as tais lâminas de barbear, a moça nunca aparecia na superfície prateada.

21 de maio de 2008 17:56 Cadu Oliveira disse...

Olá.
Primeira vez que apareço aqui e confesso ter gostado bastante do blog. Bom texto. Eu, esperançoso, estive torcendo pelo final feliz.

Voltarei em breve.
Grande abraço.

25 de maio de 2008 16:10 New disse...

Oiêee! Evidentemente que não havia lido ainda por falta de oportunidade. E espero que não fique chatedo se eu lhe disser que aguardava tal final. rsrsrs... a gente fica um pouco transparente quando escreve. É um tipo de tranparência, concorda?
Mas, enfim... não duvido que foi a melhor decisão a ser tomada. Adorei e li mais de uma vez.
Se tiver continuação,a vise-me, por favor.
Beijos.

PS.: sim o 'Xereta' é meu e é um prazer tê-lo por lá também. Estou fora de casa a uma semana e por isso não tenho tido como atualizar meus blgos como deveria.

25 de julho de 2010 16:05 Um Olhar Atento de Diana Esnero disse...

Excelente! Continue escrevendo com tanta verve!

25 de julho de 2010 16:15 Patricia Mendonça disse...

Bela forma de conhecer vc! Delícia de texto!

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